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Ética e Fotografia – No Contexto do Fotojornalismo

Neste contexto podemos considerar que o fotógrafo faz fotografias com a finalidade de informar o público por via da publicação das imagens num jornal ou num outro qualquer Media de circulação massiveddie_adams_vietconga.

Como exemplos mais famosos podemos citar a fotografia de Eddie Adams que retrata a execução sumária de um prisioneiro Vietcong, ou as fotografias que Robert Capa recolheu na Guerra Civil espanhola (em particular “Falling Soldier”), bem como as que fez no Dia D (invasão da Normandia).

O objeto central da discussão ética no fotojornalismo está ligado ao tipo de entendimento e interpretação que este tipo de imagens pode gerar na opinião pública. Desde que Platão publicou o seu Livro “A República”, tem vindo a ser discutido que as imagens são incapazes de ministrar o tipo de compreensão que é requerida para se alcançar o conhecimento. Por oposição às palavras escritas. Estas são capazes de providenciar o tipo de narrativa que se considera para a avaliação ética ou para aquilo que Susan Sontag designa de Conhecimento ético ou político no seu ensaio “Na Caverna de Platão”.

Se tivermos em consideração aquilo que Eddie Adams retrata na já referida fotografia de uma execução sumária; a fotografia por si só habilita o observador a saber que pelo menos uma pessoa foi morta de uma forma deliberada por via de um tiro na cabeça. Porém torna-se depois necessário algum conhecimento para que o observador posso avaliar o ato em termos éticos, como por exemplo, a série de eventos que antecederam o ato; bem como os Estados de Espírito das pessoas envolvidas. O observador também precisa de saber, por exemplo, se o homem executado cometeu ele próprio algum ato deliberado de assassinato, ou se o seu assassino acreditava que cometendo esse ato de execução sumária estaria a prevenir assassinatos no futuro. Nenhum deste conhecimento pode ser adquirido por via da observação/análise de uma fotografia, no entanto as palavras podem facilmente prover este tipo de conhecimento.  Elas podem, por exemplo, informar o leitor de atos hediondos cometidos previamente pela vitima da fotografia de Eddie Adams. De facto, alguns meses depois de esta fotografia ter sido amplamente difundida, Adams tomou conhecimento de que a vítima que retratou tinha, horas antes, assassinado uma família inteira. Esta descoberta deu a Adams um remorso para o resto da vida pelo prejuízo que a sua foto trouxe à reputação do executor nele retratado.

Tais Limitações no tipo de significados que fotografias podem trazer levou Susan Sontag a concluir que as imagens fotojornalísticas podem criar consciencialização e que o efeito de tais imagens podem ter não irá além de aportar um certo tipo de sentimentalismo.

A mesma autora, em 2003, escreveu um trabalho intitulado “Regarding The Pain of Others”, no qual descreveu algumas dimensões éticas positivas do fotojornalismo: tais imagens podem levar os observadores a ter presentes as atrocidades cometidas no passado. Recordar e ter presentes estes atos é, na opinião da autora, um ato ético que é intrínseco e positivo. As imagens fotojornalísticas também podem ajudar a manter o sofrimento daqueles que estão geograficamente distantes na mente dos observadores e desta forma garantir que o sofrimento não seja ignorado. Mas Susan Sontag mantém-se firma na sua falta de otimismo no que concerne ao potencial que as fotografias  têm para trazer aos observadores entendimento e compreensão.

Uma segunda questão tem que ver com a dimensão que o fotojornalismo adquiriu com o advento do Digital. Antes da difusão massiva desta tecnologia era impossível editar uma fotografia e alterá-la de forma impercetível. Como consequência, os observadores de imagens fotojornalísticas desenvolveram uma confiança implícita na veracidade das imagens difundidas, pois acreditava-se que elas eram sempre verdadeiras, e por isso os observadores tinham, regra geral, boas razões para acreditar nelas, bem como nas crenças que elas podem aportar.

Bárbara Savedoff, no seu livro “Transforming Images – How Photography Complicates the Picture” defendeu que essa confiança depositada pelos observadores naimagem fotojornalística foi trazida para a Era Digital. Uma imagem aparentemente alterada, se apresentada a uma audiência de confiança, pode alimentar crenças completamente falsas, mesmo enquanto os observadores acreditam que têm boas razões para pensar que essas crenças são verdadeiras.  Este tipo de confiança perdeu a vantagem inicial e levou muitos jornais a lidar duramente com fotojornalistas que não resistem à tentação. Valerá a pena citar um de muitos exemplos: um fotojornalista do Los Angeles Times que foi despedido por ter fornecido uma imagem digitalmente alterada para uma primeira página dessa publicação. Porém seria injusto não referir que muitos conselhos editoriais fomentam este tipo de práticas. Os fotojornalistas têm-se mostrado porém ativos e têm-se manifestado insistentemente sobre a falta de ética que existe neste Mundo.

Os fundadores e membros da agência Magnum Photos, nas décadas de 50 e 60 do século passado, codificaram muitos aspetos daquilo que é considerado uma prática eticamente aceitável. Anteriormente, no início do séc. XX, o uso de imagens fotográficas em propaganda, até mesmo aquelas que eram obviamente bastante manipuladas, tais como as fotomontagens e colagens de Jonh Heartfield ou Hannah Höch nas décadas de 20 e 30 deram origem a um novo léxico relacionado com o uso das imagens para propósitos e objetivos relacionados com a vida social.

O observador suportou a oportunidade de ser educado sobre a natureza da imagem através de ela própria, bem como acerca dos seus propósitos e, assim poder discutir melhor as discussões éticas que entretanto surgiram.

Autor: Rui Campos

Part-time Photographer

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